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Na esquina da cozinha inchou-se a perspetiva de desistência, uma desistência total. O inchaço aumentava proporcional ao esvaziamento do útero e, com ele, do seu espírito. Ela sentia-se… A c o r r e n t a d a… TOU A GOZAR!! JK!! JK! Estava a parecer que a mulher artista recebia texto de exposição sobre cozinha, labuta e função uterina? “Espírito” esvaziado logo no primeiro parágrafo?… Há gente que merecia ser sugada para o vácuo… Não me refiro ao leitor em concreto! Mas h á g e n t e…

Isto porque a minha amiga pintora passou por alguma terapia imersiva em assuntos de domesticidade , que é daquelas coisas associadas às pintoras (não por escolha própria mas cortesia das circunstâncias), durante os anos desde que pinta. É demasiado cedo para ser um percurso longo mas é firme, robusto, muito como a bagagem proverbial que as pinturas dela carregam e que ela espera que não seja incómoda para os outros. Se calhar ela agora já não quer saber se é incómoda — é o que eu quero para ela também: que nessa bagagem lhe ponha umas rodas e uma trela para que a leve para todo o lado sem magoar as costas.

Mas a Inês é incapaz de antagonismo. É sensível, razoável, em tudo menos a fazer as pinturas, que são doentes… Padecem de histeria, o que Egas Moniz classificaria de caso patológico. Desequilibradas como Alex Forrest, interpretada por Glenn Close em Atração Fatal e a Nicky em Obsessão e qualquer outra louca num thriller. Que é como quem diz, normalíssimas até ficarem sob o efeito de um veneno ou achaque alheio, para depois serem representadas como insanas, presas por convenções externas (do que delas é esperado). É esta a sedução das pinturas da Inês e respetiva bagagem: são objetos ímpios, sem razão nem moderação.

Fonte: Galeria Zé dos Bois (ZDB). Horário, local exato e preço na página oficial.

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