
Em Águas Turvas , Inês Zenha (Lisboa, 1995) cria uma paisagem fluida e imersiva onde identidade, desejo e corporeidade se entrelaçam num processo contínuo de transformação.
Partindo de um vocabulário simultaneamente poético e político, a artista propõe uma viagem subterrânea através de sistemas – do corpo e das infraestruturas humanas – em que a água, os fluidos corporais e a argila se tornam os fios condutores dessa transformação.
Este «tornar-se líquido» constitui o eixo conceptual e formal da exposição. Na sua recusa em serem fixados, classificados ou contidos, os líquidos espelham as dinâmicas da experiência queer, marcadas por noções de negociação, transição e resiliência. A água deixa, assim, de ser apenas uma metáfora para assumir o papel de protagonista, atravessando e ligando as diferentes obras.
O espaço expositivo transforma-se numa espécie de gruta pós-humana – simultaneamente templo e esgoto – onde tubagens e sistemas hidráulicos se cruzam com gestos performativos, convertendo a exposição num organismo vivo que respira, transborda e digere. Neste ambiente poroso, o público deixa de ser um observador passivo para participar numa coreografia de fluxos, sendo convidado a sentir em si o movimento rítmico da água.
Texto e imagem: Agenda Cultural de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa), CC BY. Ler na fonte.











